sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A Metamorfose

O medo carrega, o cheiro atormenta deixando apenas a confusão. A Metamorfose é pesada para as breves borboletas, que em breve não mais voarão, não assistirão ao atracar de barcos carregados de fé no que poderá existir para lá da areia, não poisarão no teu rosto, na tua frágil pele, cheia de cheiro e de música acústica, apenas instrumental, retendo todas as vozes em si nascidas, não nadarão em teus braços ignorando o rio seco que te precipita para um pequeno abismo que não hesita em sugar-te para seu regaço, esse ama-te como quem morre no esforço, como quem roda ao sabor do vento, aos olhos frios e gélidos da chuva. Essa ama a terra ao cair-lhe por fim, e a terra absorve, engole e saboreia o calor do pedido da chuva, movimentam-se no silêncio, ouvem o fogo em si e iluminam cada ponto escuto no outro.
Ajudam-se, colhem flores juntos, riem porque o outro chora de tristeza, usam e abusam do gozo e do arrepio gritante que neles habita.
Vencem o espaço abarrotado, empacotado, saltando ao vazio, caçando a sua única presa. Deixando-a fugir mais uma vez, cruelmente oferecendo uns minutos aqui, para saberem olhar as colinas, observar como estes se amam, tratando de morrer pelo outro, pensando uma dúzia de vezes, devendo o seu medo à pura saudade.
Corações puros, coração que a borboleta não terá, não será nem quererá fazer uso. Tudo porque não se sente amada, porque a terra não ama como ama a chuva, porque não vê como a presa vê antes de sucumbir, não sabe o valor da queda em arvoredo coberto de bicos, que apenas anestesiam para a dor de voar.
Se conheceres uma borboleta feliz, corta-lhe as asas e ela aí, será finalmente feliz, saberá observar a incontrolável queda e desejável em solo alheio.
Deixa o pássaro poisar e assistir.
A maior Metamorfose reside em ti, a dos outros, a da terra e da chuva é secundária, é apenas a tua que não te deixa voar, que não te permite assistir ao espelho a uma longa viagem, solitária.

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